Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

Doctores e inginheros...

Já faz um tempinho que esta cena, verídica, ocorreu.

"

Convocado para uma reunião entre várias entidades profissionais, compareci à hora marcada.

Sentado na grande mesa oval, coloquei os meus apontamentos, recolhidos minuciosamente para poder debater a minha parte, em cima do tampo. Ao topo, o presidente da mesa, engenheiro chefe da empresa contratante, dava início à reunião, redigindo de imediato a acta da mesma:

… Presentes: Engenheiro… (perguntava o nome), escrevia… x, da Empresa… Y, Engenheiro… (perguntava o nome), escrevia, da Empresa… z, etc. Iniciara pela direita e eu estaria aí pelo 7º lugar. Quando chegou a minha vez, escreveu: Engenheiro… Aí eu interrompi. Não tinha chegado a tempo de dizer nada e ele já tinha escrito na acta.

-Desculpe mas, não sou engenheiro. Sou Técnico de (…). – mas, devo ter dito aquilo de uma forma tal que tudo se calou, houve um minuto de silêncio. Olharam todos para mim com um ar atónito, como se eu fosse um bicho estranho na salada de frutas que ousasse afrontar ou estragar aquele colorido de frutas diversas.

O presidente da mesa quebrou o silêncio: Não é Engenheiro? Paciência.(Ria-se…). Passa a sê-lo. Já aqui está escrito. Bem, esperando que não haja constrangimento da sua parte…

Respondi-lhe que não, mas que o facto não corresponderia à verdade se bem que, para os fins da reunião, essa qualificação não tivesse peso.

É claro, como água, que, após tal apresentação, fiquei relegado para o fim da mesa. Todos conversavam uns com uns outros, debatiam o que se poderia fazer ou não mas, ignoravam a minha existência mundana.

-Eu vou dizer ao meu pessoal para fazer isto… - dizia um.

-Ah, sim, o meu departamento vai elaborar isto… - dizia outro.

-Claro, vamos elaborar um estudo e depois… - outro a seguir.

Está visto que eu não existia mesmo. Ninguém me dirigia a palavra. E eu, gozava o panorama. Eram todos chefes ou directores departamentais de diferentes empresas. Eu, questionava-me por que carga de água não tinha sido o meu chefe, também ele engenheiro, a ir à reunião. Deixei-me estar recostado na cadeira.

A dada altura, o presidente da mesa, verificando que eu estava com um ar de gozo e calado, remetido para um canto por todos aqueles pesos pesados das empresas, perguntou-me: E, o senhor… Técnico, tem algum assunto a colocar?

Calaram-se todos e os olhares viraram-se para mim, na esperança de me ver escorregar para debaixo da mesa. Endireitei-me na cadeira, abri calmamente a minha pasta, coloquei os estudos feitos, à vista de todos para poderem ver e disse: Está aqui a proposta da minha empresa e por mim elaborada com o aval da minha chefia, esquiçada apenas, com um orçamento prévio e com as peças necessárias desenhadas. Este caderno está pronto a ser entregue para análise da entidade requerente, fica aqui para poderem consultar e é minimalista o que quer dizer que, estes trabalhos são imprescindíveis para a prossecução da obra. Já agora desculpem, mas, estou aqui a perder o meu precioso tempo, e o da minha empresa pelo que, vou sair da reunião ficando aqui os elementos escritos, trazidos para vossa apreciação.

Dito isto levantei-me e fechei a pasta. Fez-se um sururu na sala. E estava a vestir o casaco quando, em alto e bom som, o presidente da mesa decidiu falar. E, meigo não foi.

-Espere, não saia ainda. Tenho umas palavras a dizer e quero que o senhor as ouça. Meus senhores, lastimo imenso ter de dizer isto mas, esta reunião foi agendada com tempo suficiente e foi solicitado, a todas as empresas presentes, que trouxessem elementos para avaliação dos custos e implicações da obra. Ora, entre tanto engenheiro aqui presente, e penso que representantes das empresas a que pertencem, o único, e repito, o único que trouxe elementos concretos e válidos, foi o sr. X da empresa Z, por acaso, ou não, técnico, como ele fez questão de esclarecer e muito bem. Foi o único que fez os “trabalhos de casa” como foi solicitado na convocatória inicial. – nessa altura, viam-se uns olhares de raiva contida numas cabeças baixas e a olhar o tampo da mesa. Se pudessem, comiam-me vivo, passe a expressão – Sr. X, obrigado pela sua comparência e agradeço-lhe os elementos trazidos que seguem de imediato para o nosso gabinete para apreciação. Dispenso-o do resto da reunião pois acredito que terá outros assuntos para tratar. Eu próprio o acompanho à porta da sala.

E, levantando-se da cadeira, acompanhou-me até à porta da sala de reuniões, despediu-se com um formal aperto de mãos e um agradecimento pessoal pelo interesse tendo deixado atrás de nós uma série de gente com olhares fulminantes. A porta fechou-se atrás de mim e mais nada ouvi. Ria-me interiormente, gozando a cena, num misto de contente pelo reconhecimento e lastimando um país assim. Segui o corredor e, ao passar pela recepção, a recepcionista levantou-se e cumprimentou-me:

-Boa tarde sr. Engenheiro.

Virei-me para ela e, com o sorriso mais simpático que conseguia ter, respondi-lhe:

-Engenheiro não, Técnico. Uma boa tarde para si também. - não sei se ela percebeu ou se apenas ficou com a ideia de que eu devia ser algum louco. Apostaria mais na segunda...

 

Pois esta cena já ocorreu uns anos atrás, não muitos. Mas este país sempre foi um país de engenheiros e doutores em que o valor do indivíduo é atribuído pelo canudo que exibem. E, quem não é “engenheiro”, tem de o ser à força quando a etiqueta assim o recomenda. Não que eu queira dizer que engenheiros e doutores sejam incompetentes. Nunca tal facto estaria perto da verdade. Mas, admito que, como em todas as classes profissionais, há os profissionais, há os dedicados e, como não podia faltar, também há os incompetentes.

Eu, na minha vida também fui um “projecto de engenheiro”. Mas, entre um mau engenheiro ou um bom técnico, optei por fazer aquilo que eu gostava, isto é, ser Técnico. Bom ou mau, isso fica à consideração de quem me avalia o desempenho e, face aos resultados que tenho obtido, não me parece que seja mau. Mas isso é o menos importante excepto se desse facto advir prejuízo para a minha carreira. Sou e sempre serei um Técnico, de alma e coração, alguém que procura a solução e implementação da mesma quando solicitada ou necessária.

Surgiu-me este episódio real quando hoje em dia se fala tanto dos “tachos e poleiros”, dos “boys e dos amigos”, dos corruptos e incompetentes, das razões que levam uma nação a afundar-se, moralmente e economicamente.

Para mim o episódio retratado apenas constituiu uma questão de ego e vaidade. Nada me trouxe mais em termos de qualquer mais valia. Continuo a desempenhar o meu trabalho como sei e o melhor que consigo. E, espero poder fazê-lo com o mesmo desvelo durante muitos mais anos.

Agora, também gostava que este estado de coisas mudasse um bocadinho, para melhor.

É pedir muito, não é?


publicado por Francisco às 14:46
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